Cimeira da União Europeia
O novo compromisso significa intensificação da ofensiva anti-povo
A linguagem dramática utilizada pela plutocracia e os analistas dos
media burgueses, que caracterizaram a cimeira da UE de 28/29 de Junho como a
"mais crucial para o futuro da Europa", foi outra tentativa de
enganar e espalhar ilusões entre os povos de que a UE e os governos
burgueses de centro-direita e centro-esquerda podem enfrentar os problemas do
povo e proporcionar uma saída da crise favorável ao povo.
Durante dois anos toda e qualquer cimeira da UE era caracterizada como
"histórica" ou a mais "crucial", enquanto a crise
capitalista na UE e na Eurozona continuava a aprofundar-se. E em cada
ocasião ficou demonstrado que a cada Cimeira da UE acrescentava-se mais
um elo à longa cadeia de medidas anti-povo, estendendo o assalto
anti-trabalhadores a todos os estados membros da UE sem
consideração pelas suas circunstâncias fiscais nem o seu
nível de endividamento.
Cada vez que se divulga que foram dados passos na direcção da
ultrapassagem da crise capitalista, as principais dificuldades da sua
administração pela classe burguesa tornam-se aparente. Cada vez
que há um apelo ao "princípio de solidariedade" no
interior da UE, eles mais uma vez revelam as enormes contradições
entre as classes burguesas dos seus estados membros, especialmente entre
aqueles das principais economias capitalistas.
Ao mesmo tempo, as manifestações de arrependimento de
mercenários do sistema quanto às consequências realmente
dramáticas da crise capitalista para as vidas das classes trabalhadoras
e estratos populares têm uma outra dimensão. O seu objectivo
é intimidar os trabalhadores dizendo que as coisas podiam ficar piores e
que as privações poderiam agravar-se ainda mais. Deste modo eles
aceitarão a aliança predatória como o único
caminho, que a única solução para eles é
submeterem-se ainda mais e assim na realidade facilitar o trabalho dos seus
executores e não a protecção das suas vidas.
Mais outro compromisso
O resultado da Cimeira foi mais um compromisso. A crise capitalista está
aprofundar-se na Eurozona e na UE como um todo. Segundo a previsão da UE
a economia italiana contrair-se-á em 2,4% em 2012 (a previsão
original era de 1,6%). A Espanha procura juntar-se ao Mecanismo de Apoio,
Chipre vem a seguir e haverá outros.
A confrontação, particularmente entre as classes burguesas da
França e da Alemanha, as grandes dificuldades que a gestão
burguesa enfrenta na Itália e na Espanha (3ª e 4ª economias
capitalista na Europa, respectivamente) parece ter rompido o chamado eixo
"franco-alemão" (o qual de qualquer forma tinha um
carácter temporário no período anterior, pois as
contradições entre eles nunca cessaram). Isto cria novos, e mais
uma vez temporários, eixos e anti-eixos da Alemanha e da França,
com a Espanha e Itália, bem como a Grã-Bretanha, a qual é
a economia capitalista mais forte fora do euro e que procura o seu
próprio papel discreto.
1.
O notório "Pacto de crescimento" que foi promovido ao longo
de todo o período anterior por sociais-democratas e oportunistas
é uma tentativa em grande escala de enganar os povos. A primeira coisa a
ser enfatizada é que este pacto insiste fanaticamente na
observância de todos os acordos reaccionários anteriores e nas
regulações da UE: "o Pacto Fiscal", o "The Euro
Plus Pact", as regulações para a
"Governação económica fortalecida" e o
"Semestre europeu" com o seu núcleo de esmagamento dos
salários, do trabalho e dos direitos de segurança social dos
trabalhadores.
Não é de forma alguma acidental que uma das mais importantes
decisões da Cimeira tenha sido a adopção de
recomendações propostas pela Comissão para todo estado
membro da UE dentro da estrutura do Semestre Europeu. O conteúdo
básico destas recomendações é uma ofensiva ainda
mais intensa contra a classe trabalhadora e direitos populares em todo estado
membro. Desde a Alemanha, França, Espanha e Bélgica até a
Eslovénia, Chipre e Grécia.
O próprio conteúdo do "Pacto de crescimento" revela as
forças da "UE como rua de sentido único", a ND, SYRIZA,
PASOK, Esquerda Democrática, Gregos Independente, etc que fizeram um
grande alarido no período anterior com a promoção de
mudanças na UE, usando a eleição de Hollande como
pretexto. O que é que esse "Pacto de crescimento" proporciona?
a) Ainda mais integração do Mercado Único Capitalista da
UE, a melhor implementação da directiva Bolkenstein, para a
liberalização de serviços o que conduz o preço da
força de trabalho para o mais baixo nível possível, a
completação do mercado liberalizado a
privatização dos sectores de energia, transportes,
telecomunicações, etc.
b) O maior truque trapaceiro do Pacto é o anúncio de 130 mil
milhões de euros para a realização de determinados grandes
projectos, os quais já haviam sido acordados na semana anterior na
reunião de Roma entre Hollande, Merkel, Monti e Rajoy. Na verdade,
alguns propagandistas burgueses cuja especialidade é a sua
devoção à UE, com várias
prestidigitações astuciosas estão a tentar
apresentá-lo como sendo no valor de 180 mil milhões de euros.
Isto é um fingimento.
Esta é a verdade revelada pelo presidente do Conselho Europeu, Van
Rompuy, numa entrevista em 28 de Junho: Os 10 mil milhões de euros que
serão providenciados pelos Banco Europeu de Investimento (BEI) a fim de
aumentar o seu capital o qual já atingiu 60 mil milhões. Algum
dinheiro será disponibilizado a partir deste capital para
empréstimos aos estados membros para investimentos.
O resto dos 60 mil milhões de euros vem, por um lado, dos 55 mil
milhões do financiamento já disponível dos fundos de
coesão da UE que não foram absorvidos pelos estados membros e
deveriam retornar aos tesouros nacionais, enquanto por outro lado os 5 mil
milhões de euros serão disponibilizados na forma dos
"títulos projecto" piloto, ou seja, um empréstimo
garantido pela UE, para projectos específicos que assegurem uma alta
taxa de lucratividade para os negócios dos monopólios.
Consequentemente, estamos a falar em cerca de 120 mil milhões de euros,
talvez menos, os quais não são moeda adicional, mas moeda que
já foi programada para ser investida através do orçamento
existente da UE e especificamente pelo Fundo de Coesão e Desenvolvimento
Regional da UE.
A pergunta mais importante é
para onde será destinado o dinheiro,
para que desenvolvimento e para quem?
Este dinheiro gratuito será
proporcionado aos grupos monopolistas da projectos de construção,
para investimentos em sectores de alta lucratividade para o capital, tais como
redes de energia, transportes, tecnologia verde e tecnologia digital que
criarão muito poucos empregos e estes terão um carácter
temporário e acabarão com o término dos projectos. E na
verdade uma grande parte do dinheiro será na forma de empréstimos
(tanto do BEI como de títulos projecto) os quais devem ser reembolsados
não pelos negociantes que receberam o dinheiro mas pelos tesouros dos
estados nacionais, isto é, pelo povo!
Isto é a fraude do desenvolvimento capitalista da UE. Desenvolvimento
com austeridade.
Desenvolvimento para os poucos, o que quer dizer lucros para
os monopólios com dinheiro gratuito da tributação dos
trabalhadores da UE como um todo, austeridade, desemprego e pobreza para a
esmagadora maioria, a classe trabalhadora e os estratos populares.
O acordo-farsa é a desculpa da classe burguesa francesa que o presidente
Hollande está a tentar "vender" internamente e aos seus
"aliados" a fim de alcançar o acordo pleno, a
adopção e implementação do "pacto fiscal"
anti-povo e de toda a estrutura da "Governação financeira
fortalecida", deixando abandonados seus admiradores na Grécia
ND, SYRIZA, PASOK, Esquerda Democrática e Gregos Independentes.
2.
Os apologistas da UE e oportunidades de todo calibre estão a tentar
apresentar o compromisso alcançado na Cimeira da Eurozona em 29 de Junho
como um passo em frente, um êxito para a Espanha e a Itália e uma
derrota para a Alemanha.
a) Que os bancos tomem emprestado para a recapitalização
directamente do Mecanismo Europeu de Apoio, do modo que este empréstimo
não sobrecarrege os estados membros e b) o FEEF (EFSF na sigla em
inglês) possa sob certas condições comprar títulos
de dívida dos estados membros os quais são onerados com altas
taxas de juros no seu empréstimo.
Vários absurdos estão a ser promovidos pelo SYRIZA em
relação à chamada "forte capacidade de
negociação" da Espanha e da Itália, em contraste com
a "incompetência de gestão dos governos gregos". Rajoy e
Monti já tinham nas suas pastas enormidades de medidas anti-povo antes
de partirem para Bruxelas.
Por que os apoiantes da aliança predatória da UE estão a
celebrar? Porque os bancos que já receberam 5 milhões de
milhões
(trillion)
de euros da UE até agora estão a tomar emprestado directamente
do FEEF! Porque o FEEF comprará os títulos da dívida do
estado dos estados membros ao invés do Banco Central Europeu, o qual
fazia isto até agora. O que estão eles a esconder cuidadosamente?
-
que o FEEF é um mecanismo para a bancarrota controlada que foi criado
na base de acordos inter-estatais, nos quais a Alemanha e a França
têm uma posição dominante em relação a
controle do sistema financeiro.
-
que a capacidade dos bancos para tomar emprestado do FEEF depende da
criação de um mecanismo da UE para a supervisão dos
bancos, os quais controlarão e supervisionarão os bancos em lugar
das autoridades dos estados nacionais. Este mecanismo de supervisão da
UE deve ser criado "urgentemente" até o fim do ano de 2012.
-
que os estados membros devem também assinar o "Memorando" a
fim de contrair empréstimos para a recapitalização dos
bancos.
-
que a Espanha também assinará o memorando desde que a
respectiva declaração faça a seguinte referência:
"insistimos na rápida conclusão do Memorando de Entendimento
anexado ao apoio financeiro à Espanha para a
recapitalização do seu sector bancário".
- que a fim de o FEEF poder tomar títulos do estado os quais até então haviam sido comprados pelo BCE sem condições os respectivos estados membros devem "respeitar suas Recomendações Específicas de País e seus outros compromissos incluindo seus respectivos cronogramas, sob o Semestre Europeu, o Pacto de Estabilidade e Crescimento e o Procedimento de Desequilíbrios Macroeconómicos. Estas condições deveriam ser reflectidas num Memorando de Entendimento".
Assim, esta é a razão porque os apoiantes da "UE como
caminho de sentido único" e os oportunistas estão a
celebrar, porque os "memorando" que trazem pobreza e
privação para o povo trabalhador estão a ser generalizados
em todos os estados membro; porque cada vez mais direitos dos estados membros
são cedidos não só para os corpos da UE como também
para estruturas como o FEEF.
E este compromisso o qual em nada enfraqueceu a posição
dos monopólios alemães e satisfez a posição da
classe burguesa alemã em favor de uma integração
económica mais profunda da UE não enfrentará a
crise capitalista na UE e na Eurozona. Ao contrário, continuará a
colocar o fardo das consequências da crise sobre os ombros da classe
trabalhadora e dos estratos populares em todos os estados membros,
reforçando a posição dos grupos monopolistas mais fortes.
3.
O relatório "Rumo a uma união económica e
monetária genuína" ("Towards a Genuine Economic and
Monetary Union") que foi apresentado pelo presidente da UE e redigido por
ele, o presidente da Comissão Europeia J.M. Barroso, o presidente da
Eurozona J.C. Junker e o presidente do BCE M. Draghi aprofunda o
carácter reaccionário da UE e intensifica sua agressividade
contra os povos. Ele segue a linha de uma ainda maior integração
económica e política da Eurozona e da UE ao longo da
próxima década.
Ele de facto providencia a concessão de ainda mais direitos soberanos
dos estados membros da UE para corpos da UE, em troca da
consolidação do seu poder contra o povo. Providencia uma
"nova arquitectura para o euro" na base de três pilares para
esta integração.
a. Sector financeiro:
propõe um controle central do sistema bancário dos estados
membros por um corpo da UE de modo a que a própria UE tome
decisões respeitantes a bancarrotas, a fusões e a tomadas de
controle dos bancos. Por outras palavras, quanto à
concentração e centralização do capital no sector
financeiro. Isto entrará em vigor imediatamente (no fim de 2012) com a
decisão acima mencionada da Eurozona. Nesta base uma estrutura para a
reconstrução de bancos e um Sistema Europeu de Seguros de
Depósito podem ser constituídos.
b. Finanças públicas:
propõe a "emissão de dívida comum", nomeadamente
a emissão de títulos pela UE e a criação de um
"fundo para recompra de dívida" dos estados membros. No
entanto, isto exige que os estados membros da UE cedam o direito de elaborar
orçamentos nacionais para corpos da UE, que imporão o cumprimento
dos seus propósitos e a formação de um mecanismo da UE
para finanças públicas.
c. No campo da política:
prevê uma ainda maior coordenação e controle das
políticas económicas dos estados membros no quadro do
"Semestre Europeu" e do "Pacto Euro plus" bem como medidas
para a intervenção nos corpos administrativos e políticos
dos estados membros a fim de impor a reestruturação capitalista,
a qual é considerada necessária para cada estado membro.
É óbvio que estamos a tratar do reforço das
características mais reaccionárias e anti-povo da UE, da ditadura
dos monopólios. Além disso, é característico que a
maior parte das medidas tenha sido proposta e propagada no período
anterior por diferentes secções do capital e também tenham
sido adoptadas e propagada pelos oportunistas do SYRIZA e do PEE (Partido de
Esquerda Europeu). Na verdade, o comunicado de imprensa do SYRIZA, o qual foi
emitido à luz da Cimeira, utiliza as mesmas expressões deste
plano reaccionário, sugerindo como solução para a UE uma
"nova arquitectura" e centrando-se na "emissão de
dívida comum". Por outras palavras, a administração
desavergonhada do capitalismo que está enraizada no programa do SYRIZA.
4.
A Cimeira adoptou novas medidas contra a Síria e o Irão,
escalando a descarada intervenção imperialista da UE, dos EUA e
da NATO à luz do aguçamento de competição com a
Rússia, China, Índia, etc pelo controle dos recursos naturais da
região e a exploração dos povos. A Cimeira decidiu impor a
partir de 1 de Julho de 2012 o embargo do abastecimento dos estados membros da
UE por petróleo iraniano bem como outras medidas contra o Irão,
um facto que terá um impacto negativo sobre a Grécia e outros
países que estão no olho da tormenta da crise capitalista.
As análises e advertências do KKE antes das eleições
estão a ser tragicamente confirmadas para o povo. O KKE continua
firmemente a remar contra a maré com todas as suas forças nas
fábricas, nos sectores, nos bairros de trabalhadores, com os
agricultores pobres e os auto-empregados. O carácter realista da
proposta política do KKE é baseado na realidade objectiva da
barbárie capitalista e na necessidade do seu derrube, para a
satisfação das necessidades contemporâneas do povo.
A crise capitalista está a aguçar-se na Eurozona e na UE e o
impasse da gestão burguesa está a aumentar. Este desenvolvimento
torna o capital monopolista ainda mais agressivo e aumenta a intensidade do
ataque do seu pessoal político contra a classe trabalhadora e os
estratos populares.
Desemprego, pobreza e privação estão a propagar-se
exponencialmente e provocam ainda mais sofrimento para o povo grego. Na
Grécia a gestão capitalista ainda coloca em risco as vidas do
povo com a cessação de pagamentos no sector da saúde e de
medicamentos. Isto desmantela as condições de vida
básicas, tais como alimentação e habitação.
Nosso povo deve erguer-se contra as chantagens, contra a
intimidação e as ilusões de que possa haver uma boa
administração do capitalismo. Contra a lógica da UE do
"caminho de sentido único" que é promovida por todas as
forças politicas que apoiam o Euro e a UE, nomeadamente a ND, SYRIZA,
PASOK, DIMAR, Gregos Independentes e o fascista "Aurora Dourada", o
qual é o punho de ferro do capitalismo.
A única solução para o nosso povo é a proposta
política e o quadro de exigências imediatas e luta que o KKE
propõe. Nenhum sacrifício pela plutocracia. Fortalecimento dos
movimentos do trabalho e do povo. Nenhum trabalhador deve estar na crise.
Organização, contra-ataque e luta nos lugares de trabalho e
bairros. Desligamento da UE com cancelamento unilateral da dívida. Poder
e economia do povo.
e-mail:cpg@int.kke.gr